Reporte: Sociologia Econômica no XV Congresso Brasileiro de Sociologia

Entre os dias 26 e 30 de julho, a Universidade Federal do Paraná, na cidade de Curitiba, recebeu o XV Congresso Brasileiro de Sociologia, que este ano teve como tema geral “Mudanças, permanências e desafios sociológicos”. Pela segunda vez, o encontro teve um Grupo de Trabalho de Sociologia Econômica, que tive o prazer de coordenar junto com Marcelo Carneiro, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão.

Falando um pouco da história do GT, ele representa a continuidade ao esforço promovido no âmbito do Grupo de Trabalho de Sociologia Econômica nos encontros da ANPOCS (Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciências Sociais) entre 2004 e 2008, somando-se aos encontros promovidos pelos grupos existentes na área. Dentre estes, destacam-se o Congresso Internacional de Sociologia Econômica e das Finanças, promovido pelo NESEFI (Núcleo de Estudos em Sociologia Econômica e das Finanças, UFSCAR) e o I Seminário Nacional de Sociologia Econômica, promovido pelo NUSMER (Núcleo de Sociologia dos Mercados, da UFSC). O encontro de Curitiba representou, desta forma, mais um importante passo no sentido da consolidação da Sociologia Econômica no cenário das Ciências Sociais brasileiras, como um campo de investigação que reúne tradições intelectuais, vertentes teóricas e opções metodológicas diversificadas, tendo como eixo comum a preocupação em oferecer análises alternativas ao mainstream econômico.

A organização geral do Congresso definiu o número máximo de 36 apresentações por GT. O grupo de Sociologia Econômica recebeu nada menos que o dobro de propostas, ou seja, foram enviados 72 resumos por pesquisadores de todas as regiões do Brasil, além de algumas propostas de colegas da Argentina, que tomaram conhecimento do encontro por meio de estudiosdelaeconomia. A chamada de trabalhos do grupo mencionou como temas a serem privilegiados “as lógicas específicas dos diversos mercados, os seus mecanismos de regulação político-institucional e os mapas cognitivos e morais que pressupõem as transações econômicas”, além de “trabalhos identificados sob as rubricas de sociologia da empresa, etnologia das trocas e investigações interdisciplinares sobre dinheiro e sistemas financeiros”. Recebemos propostas de alto nível e a tarefa de selecionar os artigos para apresentação não foi fácil, considerando a recomendação da organização geral do evento sobre a necessidade do equilíbrio entre qualidade, diversidade regional e institucional.

Falando sobre as apresentações, o primeiro dia foi dedicado aos temas “Construções teóricas” e “Construções sociais das lógicas econômicas”. Os trabalhos de cunho teórico investiram principalmente em duas vertentes: o diálogo com os clássicos, como por exemplo, a relação entre teorias de redes e a análise marxista e a busca de convergência entre as teorias schumpeterianas e a análise weberiana; e a retomada de questões teóricas centrais para a Sociologia (o papel da cultura, redes sociais e a interface com a tradição da economia política). Na sequência do primeiro dia, foram discutidos trabalhos que enfatizaram a dimensão cognitiva e valorativa da ação econômica, com trabalhos sobre finanças, consultorias, responsabilidade social e empreendedorismo. Merece ser mencionado, ainda, o trabalho de Edmílson Lopes Jr., por seu esforço em sistematizar temas, autores e instituições que se destacaram no “mapa” da Sociologia Econômica brasileira na década de 2000.

O segundo dia foi dedicado aos temas “Formas de coordenação das atividades econômicas” e “Sociologias dos mercados”. Neste dia, os trabalhos enfatizaram dispositivos de regulação moral e política em atividades específicas como a produção do café no cerrado mineiro, os dispositivos de governança na exploração florestal na Amazônia e o trabalho artesanal no Maranhão, assim como retomou-se a metodologia de redes sociais para se discutir inovação em incubadoras tecnológicas e a produção de utensílios domésticos no interior de Minas Gerais. Houve espaço ainda para a análise dos mecanismos de coordenação político-cultural no mercado de soja, no setor sucro-alcooleiro e no mercado de consultoria privada na Argentina, assim como para estudos antropológicos de mercados específicos, como os estúdios de tatuagem no Rio de Janeiro e as relações interétnicas em uma feira em Caiena na Guiana Francesa.

Por fim, o terceiro dia foi dedicado aos temas “Estado e desenvolvimento na América Latina” e “Desenvolvimento: dimensões teóricas e empíricas”, com trabalhos que trataram das articulações entre os níveis global, nacional e local. No plano nacional, os trabalhos enfatizaram temas como o confronto entre idéias desenvolvimentistas e liberais no Brasil da década de 2000, os limites da atuação regulatória do Estado brasileiro no setor de saúde suplementar, as fusões no governo Lula e o papel do Estado na reconfiguração do mercado de telecomunicações. No plano regional/local, tratou-se de temas como os arranjos institucionais na região do Médio Paraíba Fluminense, a relação entre comunidade cívica e desenvolvimento, inovação e desenvolvimento no setor naval gaúcho e as políticas de microcrédito.

Tem sido uma característica dos fóruns de Sociologia Econômica, tanto no Brasil como no exterior, a diversidade de temas, abordagens e metodologias. Esta diversidade já foi interpretada por alguns críticos como uma deficiência da Sociologia Econômica, pois lhe faltaria uma identidade em torno de um corpo teórico e de uma metodologia específicos. O perfil plural de encontros internacionais como as reuniões da Society for the Advancement of Socio-Economics, a diversidade de temas e questões tratadas nas principais coletâneas da área (Handbook of Economic Sociology e afins) e os diferentes problemas empíricos tratados sob a rubrica da Sociologia Econômica ao longo dos últimos anos confirmam que esta é uma característica deste campo de conhecimento. Nosso entendimento é que essas características constituem a riqueza e a força da Sociologia Econômica no mundo todo. No Brasil, não poderia ser diferente.

Convidamos os leitores de estudiosdelaeconomia a ler os trabalhos disponíveis na página do encontro, assim como vamos mantê los informados sobre as próximas atividades relacionadas à Sociologia Econômica no Brasil. Dentre as ações definidas para os próximos anos, além da reedição do GT para o XVI Congresso Brasileiro de Sociologia, a ser realizado na cidade de Salvador, Bahia, em 2013, realizaremos workshops sobre temas específicos e retomaremos o projeto de um encontro nacional da área. Esperamos que os colegas dos países vizinhos possam participar em maior número dos próximos encontros, pois o diálogo sobre a América Latina, ao menos do ponto de vista da produção brasileira, é uma fronteira ainda a ser explorada.

Cristiano Monteiro – Com a colaboração de Marcelo Carneiro.

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